quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

por mosqueiro










é o vento




é o vento que me seduz
ele caminha  livre por onde quer
visita lugares
transporta ruidos
espalha a vida cantando

ele aparece silenciosamente e se espalha
produz rastros invisíveis e barulhentos
que derrubam
que refrescam
que distribuem

é ele que derruba o antigo 
é ele que renova e recicla o tempo
é ele que põe à prova a capacidade da firmeza

o vento voa
o vento se esparrama
o vento desarruma


o vento tem a liberdade infinita e invisível


domingo, 29 de setembro de 2013

Um olhar, uma luz

                         


Ao olharmos atentamente uma coisa podemos encontrar brilho, cor, textura e detalhes que só quem vê com os olhos da alma pode enxergar. A beleza transcende opiniões e juízos, ela pode existir apenas por uma fresta de luz. Basta que a enxerguemos!!!

sábado, 28 de setembro de 2013

Escrever









A escrita me proporciona uma reviravolta interior. Encontro comigo quando escrevo, revisito sentimentos, lavo e desinfeto sensações, revivo e ressinto situações.
A escrita tem força e poder de reestruturar minha alma, por ela crio castelos, visito pomares, ando por trilhas, pinto com cores diferentes e crio, crio incessantemente. Minha mente me proporciona fugas necessárias, escapadelas momentâneas que me salvam da sanidade do cotidiano e que me levam a lugares inimagináveis no campo da realidade.
Escrever me tira o peso da repetição e o temor da angústia. A escrita me proporciona transgredir, rever e reverter fatos, recriar e transformar momentos.
Escrever, dessa forma, revigora e renova e ocupa o lugar do vazio deixado pelas falhas da realidade.

domingo, 14 de julho de 2013

Lamentos






a minha não foi boa
o que fazer? chorar ou sofrer?
não sei, me construí a custa de pesos e lamentações
e já entendi isso

sou  o agora por intermédio dessa construção
cresci por entre entulhos e ressentimentos
arrastei todos até quando pude
mas o peso fez com que os derrubassem

quero ser arrebatado, levado mesmo
quero que me desnudem a alma
quero que os entulhos transbordem
quero que eles derramem e se espalhem entre os arredores

compreender o abandono me fez serenar
me fez entender a necessidade de desatar os nós
trabalhosos e apertados, desatei-os mesmo assim
afrouxei e relaxei

pude, enfim compreender, desde então
que os pesos, as lamentações
os entulhos e os ressentimentos
me trouxeram para ser quem sou
eles me fizeram um espelho em que posso refletir a minha alma

e....sou feliz por isso





A comercialização da dor











Parei de sofrer!!!

Me encontro, temporariamente, naqueles momentos em que a dor cessa
Parece que ela adormeceu e se esqueceu de mim
Ela me deixou repentinamente, me esvaziando e despovoando meus pensamentos
Não me encontro em sofrimento mais 
Abandonei um a um os textos de auto ajuda, não preciso mais deles
Abandonei esses textos miraculosos que descrevem pormenorizadamente o caminho da gloria
Esses textos que dizem exatamente o que queríamos ouvir de nós mesmos, mas que pela dor somos impedidos de escutar
Não leio mais as frases piegas que dizem que temos que ter amor no coração para seguir o percurso da paz e da alegria
Entendi, agora, que essas frases existem porque a dor é considerada intrusa no humano
Entendi, também, que para alguns a dor arrebata a lucidez interior 
Que ela nubla e obscurece os pensamentos produzindo pessimismo e amargura
E entendi, finalmente, que a comercialização da dor acabou para mim
Sim, comercialização da dor por meio dos livros de auto ajuda
Compramos livros de auto ajuda e otimismo quando precisamos encontrar palavras que falem com a nossa dor 
Que digam a ela para ir embora
Que peçam que ela diminua e cesse repentinamente
Que encontrem uma explicação para sua presença em nosso interior
E quanto mais desconhecermos a nossa própria dor,  mais enriqueceremos os escritores de auto ajuda e mais ajudaremos na comercialização da dor
A escrita vazia, piegas e aconselhadora dos livros de auto ajuda não serve para nada
Somente para enriquecer os seus autores
Para eles, as nossas fraquezas e sofrimentos são um bem precioso para capitalizar.
Afinal, todos sabemos de antemão que....atras do arco iris não existe um pote de ouro
Só amadurecem os que sentem dor, para os que a tem como aliada, e que sabem encontrar nela algo produtivo que possa ser transformado em experiência....

um olhar, uma luz
ou um par de pérolas, mesmo sendo azuis
sou seu e te devo por essa riqueza....







domingo, 7 de julho de 2013

a moça do sonho



     Estava passeando, subitamente olhei para o lado. Vi, então, por entre as folhagens uma moça vestida de bailarina. Imaginei de imediato que era um sonho, a moça do sonho. Antecipei mentalmente aquela imagem, quis a imagem para mim. Apontei a câmera para capturá-la. Tinha que ser rapidamente para que o flagrante se consumasse. Eis o resultado, a moça do sonho se eternizou pela fotografia.

Eu também quero usar o avião da FAB, preciso conhecer Fernando de Noronha com minha família

     






                      Sou Brasileiro, trabalhador, pago meus impostos, me considero honesto, solidário, leal e cumpridor dos meus compromissos. Nunca roubei, nunca usei nada de ninguém,  nunca me apropriei de nenhum objeto que não me pertencesse. Pago religiosamente, todo ano, Imposto de renda, IPVA de carro, luz, água e colégio de filho, compro alimentos em supermercado e trabalho com afinco para manter minhas contas em dia, mas como Brasileiro, eu também, como o presidente do senado e da câmara, quero usar o jatinho da Força Aérea Brasileira pois preciso conhecer Fernando de Noronha com minha família. Será que posso??
       É horrível saber que somos comandados no senado federal por um presidente que usa bens que não lhe pertencem em proveito próprio. Que credibilidade um ser dessa natureza pode ter? Um ser que se julga superior por ser presidente de uma casa em que se decidem os interesses, inclusive os financeiros, dos estados e distrito federal desse país? Que seriedade podemos esperar de uma pessoa com essa índole maligna? É lamentável que depois de tantas manifestações populares, esses Senhores ainda possam exercer indignamente o cargo que ocupam.
        Os meios de comunicação falam constantemente de protestos pacíficos, todos os repórteres e comunicadores repetem incessantemente que as manifestações precisam ser sem violência. Eu pergunto: e a violência que esses políticos cometem diariamente, roubando, se apropriando, obtendo vantagens e caçoando solenemente da cara do povo? Isso não é violência também? Não é violência o salário que eles recebem e as mordomias que usufruem por ocupar um cargo, ao qual estão, à custa do povo?
      Fala-se constantemente que o crack virou uma epidemia. Qual nome se dá a essa doença dos políticos carreiristas e que só querem obter vantagem a custa do que não lhe pertencem?
   Só para quebrar o gelo, higienizar significa limpar, descontaminar, talvez os políticos desse Brasil precisem mergulhar em toneis de alcool a 70%, o mais potente descontaminante que existe,  ou eles se limpam de vez ou o povo vai riscar um fósforo e queimá-los junto com sua desonestidade, seu desejo de poder, seu desejo de enriquecer ilicitamente, seu desejo de enganar o povo e acima de tudo por sua traição ao cargo que lhe foi confiado.
        



domingo, 24 de março de 2013

Perdão! mas pra que?

Suponhamos que todos pudessem perdoar. Todos a partir de agora esquecerão suas mágoas e desculparão aos que julgam responsáveis por seus sofrimentos. Como seria isso? O mundo ficaria melhor? Perdão é des-culpa, é retirar do outro a responsabilidade de um sofrimento, é libertar o outro dessa responsabilidade, é dar-lhe a carta de alforria psíquica eliminando a culpa que o outro carrega por ter cometido um ato que o abalou de forma a acarretar ressentimento. Sentir, sentir e sentir. Sentir várias e inúmeras vezes, assim vive aquele que foi magoado. Pensar, pensar e pensar, repetidas vezes sobre a causa do dissabor. Recordar, relembrar, reviver o que o outro lhe causou  de sofrimento, esse é o sentimento e o oficio do magoado.
É curioso poder pensar qual lugar a mágoa ocupa dentro de nós, em que parte ela se instala. Que espaço ela ocupa dentro do sofredor que faz com que ela floresça e se dissemine causando tanto transtorno? Ao mesmo tempo qual o tamanho do lugar que damos ao outro que autoriza que um ato seu nos cause tanta dor.
Nota-se logo que nesse par há uma relação de pertencimento. Há uma ligação importante que faz com que o seu ato, o seu comportamento tenha uma repercussão gigantesca e aniquiladora sobre o outro. Eles estão tão ligados que esse sentimento é capaz de atravessar dias, meses, anos ou décadas de infinita amargura e decepção.
Por outro lado aquele que causou a mágoa vive constantemente envolvido pela culpa, pelo remorso e muitas vezes, pelo arrependimento de ter cometido um ato que foi capaz de provocar tanta devastação. Os subprodutos com certeza virão: ódio, raiva, desprezo, desejo de vingança e por ai vai. Há de forma notória uma relação de poder entre esses dois. Obviamente o lugar que o que magoa ocupa dentro do magoado representa uma parte importante de seu eu. Ele retira do outro a capacidade da tranquilidade e inaugura o lugar da amargura. Por isso é uma relação de amor. É um casal que se engana, um filho que responde mal ou vai embora, um amigo que troca de amizade, um companheiro de trabalho que muda de emprego. Exemplos corriqueiros e banais, mas que encerram situações de troca, de mudança, de alteração. E o que fica? Esse se sentirá ofendido, traído, trocado, esquecido, abandonado, machucado.
É bonito e importante dizer tudo isso, faz pensar e é fundamental para o reconhecimento da dependência, da necessidade que temos de um outro por perto. É eficaz dizer tudo isso para identificarmos em nós esse vinculo, esse pertencimento, essa união indissolúvel que estabelecemos com qualquer outro que nos confirme.
Ao nos depararmos com essa falha, deixaremos muito provavelmente os escudos caírem, as defesas serem destruídas e partiremos para o perdão.
O perdão,a partir daqui, seria a via a ser seguida, seria o reconhecimento da falha, a identificação de que o  espaço esta vazio que antes era o outro ocupava esse espaço dentro de nós, e que agora a dor preenche acompanhada pelo ressentimento pelo des-amor. O perdão recolhe a dor e trás de volta o vínculo.
Optemos pelo perdão, pelo perdão em nosso favor, pelo perdão pela identificação da impotência que carregamos para sempre.
Perdoar pode não significar reconciliação mas com certeza significará libertação.

Dias de Gloria!

Pois bem! Se até aqui chegamos estamos satisfeitos...
Encontramos nessa jornada recompensas de uma vida bem vivida
De uma vida em que pudemos construir espaços sólidos...
Ultrapassamos os percalços
Superamos os dissabores
Corremos para encontrar a paz
E o que tiramos de tudo isso?
Que a jornada pode ser dura, mas quando pintadas com as cores da maturidade
Adquirem um tom equilibrado e levemente confortável
Descobrimos que viver, acima de tudo, é superar dia após dia
Os sentimentos truculentos
viver é procurar o conforto na suavidade e maciez
No entendimento e na compreensão do outro
Mas, fundamentalmente, na busca de si
Na busca daquilo que podemos encontrar de nós mesmos
No reconhecimento de si enquanto o principal agente de toda essa construção.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Bandeiras! Inúteis, eu acho....



o mundo diz vai
e eu não vou
pouco me interesso pela direção da enxurrada
resisto, me impeço
prefiro não fazer coro, opto pelo silêncio
a observação, o visual me atraem, me emocionam e arrebatam
decido sempre pelo pensamento, pelo passeio das ideias
visito cada uma delas, preciso revê-las e repensa-las 
as bandeiras, elas sim me amedrontam
sou convicto de que a via é do particular para o coletivo
entendi que sobre a enxurrada subjaz, disfarçadamente, o poder
compreendi, por isso, que o poder é o combustível da unanimidade
reconheci que a unanimidade privilegia, favorece
não os que levantam a bandeira
mas os que são o estímulo do levante
apenas eles, somente eles, se beneficiam
os fatos manifestam a realidade
o mundo se revela aos que querem enxergar
mas os olhos permanecem fechados, nublados e cegos
a clareza se dissipa, ela se dilui num mar de arrogância 
o desejo primitivo surge como ímpeto para a consagração
bajular é preciso
se manifestar enobrece, retira o ser do obscurantismo
marca a presença
pontua a existência
nomeia o anonimato
nesse tropeço, surge desde então, a arrebatadora força
a voracidade se materializa
como uma via disfarçada para o gozo
que perseguido, nos encontra com a morte
é o esperado fim, ele chegou
e, no entanto,é o inicio de um recomeço
eu clamo e proclamo...vamos derrubar as bandeiras
vamos derrubá-las solenemente com golpes de machado
na mais absoluta paz e tranquilidade
vamos destruí-las todas, elas são inúteis, desprezíveis 
completamente desnecessárias
elas são ineficientes
imprudentes
inconsequentes
infrutíferas
elas denunciam o mais primitivo dos sentimentos
aqueles tão rudimentares que incitam a destruição
optemos por nós mesmos
optemos pela ocupação do interior
vamos ocupar nosso interior
trazer pra dentro dele impressões do mundo 
impressões colhidas com olhares
eu, de minha parte, escolhi a beleza e a contemplação
a beleza que impregna o olhar
marcando e fundando um lugar eterno 
indestrutível
prefiro contemplar à discutir
prefiro também, observar a ter que relatar
contemplar e observar colocam o eterno em mim
arrumam o meu espaço interior
inauguram um território duradouro, sólido
e só meu 
que busco quando eu quero
lá, nesse território eu me encontro com a minha construção
com a minha produção...
lá, eu encontro, o que eu recolhi com os meus olhos
lá, eu encontro a beleza 
as memórias
as lembranças
as recordações
todas minhas, somente minhas
duradouramente minhas.




terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

encontro







de repente como num lampejo que surge
me encontro aqui novamente
diante de mim
à procura de uma pista, um sinal
que me mostre o caminho de um encontro...
um encontro comigo

de repente, como que subitamente
me acho confortavelmente instalado
diante de ideias e pensamentos
todos eles disponíveis para o meu acesso
só assim encontro um residuo de mim

de repente sou invadido por uma fagulha, que me descreve
e me conta, pormenorizadamente, sobre mim
ela me diz claramente sobre mim
e consigo decifrar desde então
o que de mim me coloca no mundo

um mundo criado, enfeitado e cheio de nuances
um mundo que para mim, muitas vezes é asséptico
um mundo preparado e denunciador de formas e estilos
um mundo que diz o que fazer e com quem fazer
um mundo que pouco interessa e pouco floresce em mim

encontro assim, o poder
poder que tanto acossa o homem
colocando-o num lugar fantasmatico de um paraíso 
numa posição de superioridade utópica e ao mesmo tempo atraente
poder que obstrui os canais da consciência
poder que instaura um lugar emprestado, supersticioso e megalomaníaco 

decifro, então, que o poder é oco, desocupado
decifro que ele se manifesta sob uma nuvem de crueldade
decifro que para mim ele engana, embola, tropeça e derruba
desisto dele porisso... e decididamente, resolvo que prefiro a simplicidade e a candura

encontro logo depois a necessidade de aproveitar
a necessidade que o mundo impõe de implodir
de que tudo deve entrar com uma veemência invasora e dilacerante
declino também desse imperativo por considerá-lo atravessado, incipiente, vazio

declino também das festividades
elas me apavoram e me assombram
percebi isso depois do vazio que encontrei após visitá-las
e novamente reconheci meu fracasso perante elas

encontro-me portanto, repleto daquilo que escolhi
do que que considerei viável para meu percurso
recauchutei minhas ideias originais
revi-as uma a uma
dissequei-as para encontrá-las

assim, pude perceber que eu, mesmo sendo quem sou
posso ser outro
desatrelado
desvinculado
desinteressado
e até mesmo destemido

denuncio tudo pra mim
consigo decidir aquilo que me faz eu
decido porque exercitei minha conversa interior
decido porque me descobrir como inovador
decido por conseguir não apenas rejuvenescer o meu corpo, mas sim rejuvenescer as ideias, os pensamentos, as atitudes.


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Já sei olhar o rio por onde a vida passa...

E quando chega o final do dia nós nos encontramos, nos olhamos, trocamos algumas palavras e refletimos sobre o quanto nos mantemos juntos e separados ao mesmo tempo. Estamos juntos, inseparáveis, durante todas as horas do dia e da noite, mas pouco nos damos conta das novas marcas que surgem em nossos rostos, das expressões de nossos olhares, do tom da nossa voz, nem tampouco das nossas formas de sorrir. As vezes, até nos estranhamos quando olhamos no espelho e nos enxergamos, quase sempre nos desconhecemos. 
É quando esse encontro torna-se surpreendente pela ausência que devotamos a nós, pela falta de reconhecimento de que nós mesmos somos a nossa principal companhia. Seria interessante se reconhecêssemos que cabe a nós a primeira responsabilidade e que o outro nos enxerga exatamente por meio daquilo que produzimos e emitimos. Diz-se que "primeira imagem é a que fica", e essa, quem tece somos nós. Precisamos definitivamente assumir essa responsabilidade, assumir que antes de tudo somos nós que podemos decidir sobre nós.
Antes que responsabilizemos o tempo, o mundo, as pessoas devemos devotar a nós o direcionamento de nossas decisões e escolhas para podermos descomprometer os outros de nossas atitudes.
Deixemos os outros como nossos espectadores, como contribuintes de nossas atitudes, apenas contribuintes, mas nunca causadores de nossos atos e comportamentos.
Se conceber individual, sozinho e dono de nossos próprios atos é a melhor forma de nos aproximarmos das pessoas transmitindo leveza e suavidade.

Exercite, você consegue.....

sábado, 1 de dezembro de 2012

Os dois dizeres

Escrever se torna um prazer sempre que posso me transportar, sempre que posso constatar que o que me move a expor pensamentos é a necessidade de dizer. E dizer aqui, é a arte de descortinar um turbilhão composto por misturas que revelam nuances diversas.

Digo isso por considerar que expressar pensamento, por meio da escrita ou expressar olhares, por meio da fotografia é o mesmo que montar um quebra cabeça, onde cada pedaço vem de um lugar, ou melhor, cada pedaço pertence a uma faceta escondida do pensamento. Essa mistura complexa não só se confunde com o todo, como quando reduzida revela influencias diversas, que nem nós como possuidores da possibilidade de dizer, reconheceremos como nossas.

    Torna-se dessa maneira, um jogo de leva e trás que possivelmente não compreenderemos com facilidade, mas nem por isso esse conhecimento importará ou decidirá o curso dos acontecimentos. O ato de dizer carrega consigo uma inflexão contraditória que se manifestará enquanto falhas, ou seja, o discurso nunca e nem jamais conseguirá ser repleto do todo que queremos dizer, sendo portanto, dilacerado, fragmentado e cheio esquisitices e tropeços. Assim como o olhar revela uma imagem, o discurso produz um dito.

    Dito e imagem, dessa forma, seriam desdobramentos de uma mesma matriz composta por fragmentos de vivências, que ainda por cima, podem ser desconhecidas de quem produz.

    Para se ter a clareza do que me refiro pode-se pensar numa casa vazia em que você pretende mobiliar. Nessa casa provavelmente as cores da parede e a conformação dos moveis terão uma origem, que muitas vezes, podem estar influenciadas pelo que dita a moda, no entanto, algum detalhe poderá estar ligado a uma tendência individual, uma preferência ou um afeto. Dessa forma, provavelmente a casa mobiliada refletirá ou será influenciada por diversos fatores, decorrentes não só de mim como de inúmeros outros.

   Escrever e fotografar talvez tenham essa mesma característica.      Escrevo o que salta aos ouvidos pelo pensamento e crio as imagens fotográficas pelo que me salta aos olhos pelo pensamento também, embora ambas pertençam a mim, ambas também pertencem aos outros.Pode até parecer estranho que pertençam aos outros, mas como falei anteriormente essa mistura se constitui ao longo da experiência de vida.

  A minha flor é colorida, ela foi fotografada a noite e com flash e ela tem sim o centro amarelo. Foi a minha forma de olhar para essa flor e captura-la da minha forma. Essa forma esta repleta de detalhes provenientes de fora de mim. Apesar dela ser minha.

  Quero dizer com tudo isso que sou partidário das emoções e que elas, as emoções, podem até ser originadas de uma matriz biológica mas se constituem e se materializam através de uma sensibilidade conseguida com a vivência. E ai, a vivência importa não só a mim, mas a todos com quem me deparei no decorrer de minha existência.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Bom do bom


Quando comecei a ler achei aquilo estranho, mas enfim, cada um diz o que quer. O certo é que para ser bom, ter bons pensamentos, ter bons sentimentos, ou tudo aquilo que é pregado como nobre, como valoroso, como adequado, não deveria dispor de tanto esforço. 

Pois bem, os religiosos lutam pela bondade, eles querem de qualquer modo se equiparar a perfeição. Não se permitem sentir raiva, ter pensamentos impuros,ou ainda,não se admitem como portadores desses sentimentos. Dessa forma, eles repudiam todo e qualquer resíduo daquilo que eles consideram amoral, inadequado ou fora das leis e normas que eles acreditam. Não gostaria de estar falando de classes, nem tampouco criticar crenças, religiões ou atitudes. O que me move a falar sobre isso nada mais é do que a possibilidade de encontrar com esses sentimentos, ditos "não bons" de forma menos reativa, ou seja, compreendê-los, aceitá-los, acolhê-los. Só assim, diante deles, "cara a cara", podemos de alguma forma encontrá-los para contorná-los. Ser bom é ser bom. E o "bom" é uma qualidade inventada, que só poderá ser introjetada quando experienciada, ou seja, não é porque dizem que é bom ser bom que vamos ser bons. Isso requer, obviamente, um caminhar, um caminhar de tropeços que possibilite o dizer não àquilo que não queremos. Essa autonomia, um pouco experimentada pelos maduros e tão esperada pelos que ainda estão em processo de amadurecimento, parece ser o motor que nos leva a bondade.O homem precisou caminhar da idade da pedra até os dias atuais. Lá, na idade da pedra, o homem primitivo matava, agia impulsivamente. Hoje, na era tecnologica o homem se comunica pela internet e como tal poderia também adiar o prazer, poderia experimentar a frustração como forma de renuncia ao prazer imediato, ai sim! O  homem poderia ser bom, quando ele começar a se abandonar sem esforço. Se abandonar aqui, não é se desconectar de si, mas sim encontrar a possibilidade de colocar os ouvidos para escutar o outro sem interferência de si. Ser bom,ter bons pensamentos, portanto, não acontece porque queremos, acontece por uma capacidade de decisão que adquirimos com o tempo. Uma capacidade que se materializa pela vivência, pelo poder de decidir aquilo que queremos ou não.

     Podemos pensar que é ilusório, mas é perfeitamente viável essa caminhada. Não adianta atribuir aos outros nossa desolação. Adianta sim, experimentarmos a desolação e entendermos que ela é necessária para nos sentirmos iluminados depois.

    Pode parecer para muitos difícil, mas podemos viver em harmonia com nós mesmos a principio e depois com os outros e com o mundo, basta que nos demos a chance de sofrer dignamente. Já disse uma vez, sabiamente,  Carlos Drummond de Andrade "a dor é inevitável o sofrimento é opcional". Se deparar com a dor, no mundo em que vivemos, é inquestionável, porém, suportar a dor e lidar com ela de forma engrandecedor é para poucos e esses poucos não são aqueles que subiram um degrau no reinos dos céus e sim qualquer pessoa que saiba lidar consigo e experimente o auto afago.

    E com isso quero deixar meu recado, um recado que não me parece fora de tempo, mas que poderá servir para uma outra forma de olhar o mundo. Uma forma que permita a contemplação da beleza acima de tudo, e a aquisição de olhar que antes se vasculhe por dentro para só depois se sobrepor pelo mundo.

Essa foto eu registrei na Pedra do Arpoador em Ipanema no Rio de Janeiro. O tempo estava frio e nublado, as gaivotas voavam sobre o mar e sobre as pedras e se concentravam ao redor dessa arvore sem folhas.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O Benéfico sofrimento

O que seria de nós sem o sofrimento e a dor, talvez vivêssemos eternamente em cima do pedestal, intocáveis e crentes que somos agraciados pelo tapete vermelho por onde passaremos e desfilaremos nossa gloria. É! O humano tem a ingênua  convicção de que tudo pode, enquanto nada perturba seu equilíbrio. Ele desfila sorrateiro desperdiçando sua avidez pelo sucesso consagrando seu controle e seu poder. Então, de repente, algo acontece que o tira da linha projetada do seu caminho, derrubando-o. 
     
     Nessa queda, disposta a por a prova sua onipotência podem ocorrer diversas gradações de sentimentos que vão desde a revolta até a conformação. Nesse meio tempo vários graus de estados de animo se depositam na alma, desde a  clara sensação de estar sendo injustiçado até o reconhecimento de sua impotência diante dos fatos ocorridos. 

      É duro para o humano saber-se sem rumo. É duro saber-se sem o domínio da condução de seu barco e ver que o caminho traçado pode dar em outro destino e não aquele que ele projetou. Só é nesse momento que nos damos conta do nosso desamparo frente aos acontecimentos. Seja uma doença, um amor que se acaba, um acidente, uma perda, qualquer fato que se relacione com a perda do controle põe o humano sob tensão. Tensão essa relacionada ao extermínio da capacidade de conduzir sua vida, não sabendo mais aonde ela vai dar.

     É quando entram o sofrimento e a dor, duas benções que se apresentam como forma de redenção. E só há esse caminho mesmo, o da redenção. O caminho do reconhecimento do fracasso e da impossibilidade do controle, a derrocada do poder. É a queda, é o desmoronamento de todas as mazelas fantasiadas ao longo da vida e o reconhecimento da falha e incompetência. Elas mudam a posição do trajeto, recolocando o homem no lugar da fragilidade, inaugurando sentimentos impróprios e incompatíveis com a onipotência humana. 
     Como lidar repentinamente com esses sentimento? Eles colocam um espelho onde são refletidos fracassos, sensação de esvaziamento, desprezo, impotência e amargura.

    Sofrimento e dor são freios que nos protegem da loucura. Loucura no sentido da preservação de pensamentos paradisíacos que o humano cultiva desde que nasce. A destruição desses sentimento promove amadurecimento, ensina sobre tolerância e paciência, renova os sentimentos e promove uma aproximação entre as pessoas.

     Descer do palco e passar de protagonista à platéia promove uma mistura, uma certa igualdade entre as pessoas, minimizando o desnível pavorosamente construído em torno da fantasia de onipotência, poder e superioridade. Reconhecer que o  sofrimento e a dor trazem provação e horror é estrear também uma nova forma de viver. Uma nova forma em que o humano poderá se reconhecer misturado, igual, participante e acima de tudo desesperançoso.

    Essa imagem foi registrada numa tarde ensolarada de agosto na Ilha de Mosqueiro em Belém - Pará.

domingo, 3 de junho de 2012

Mas pra que ciúme?

Alguém hoje me perguntou sobre o que eu achava do ciúme, respondi que o ciúme demonstra o quanto o humano é impossibilitado de ser só. O ciúme reflete exatamente um temor diante de uma ameaça. A ameaça da perda de amor para um outro, seja lá o que for esse outro, uma outra pessoa, um olhar desatento, uma novela de televisão e até um Ipad. Qualquer coisa que retire o objeto de amor do lugar imaginário se torna uma ameaça, desse modo o ciúme mostra que o humano não esta preparado para dividir, nem mesmo um pensamento, quanto mais um ato. Qualquer rumor de divisão pode levar a destruição da fantasia de completude. Ora, é cruel acharmos que o outro nos pertence incondicionalmente, como isso poderia ocorrer? Como poderíamos garantir a permanência constante, daquele que escolhemos como objeto, dentro de nossa fantasia? Como poderemos subjugar o outro com frases de efeito de caráter eminentemente moralista? O ciúme se pauta numa moral criada histórica e socialmente, ele existe para dar conta de uma moral concebida num contexto cultural, a tal instituição familiar que precisa ser preservada a qualquer custo. A meu ver qualquer ciúme é nocivo. Nocivo porque ele se assenta sob uma ameaça de perda. Diferencio completamente zelo, cuidado e atenção que dispensamos ao outro, de ciúme. Ciúme implica em posse, em pertencimento. Eu julgo que o outro "me enganou" porque ele me pertencia em atos e pensamentos. Só pertencemos a nós mesmos e a mais ninguém. Só podemos determinar as nossas atitudes e os nossos comportamentos. Quando muito o outro procura nos agradar, mas isso só enquanto estivermos a serviço da sua fantasia também. Deveríamos inverter a ordem do discurso dos amantes: ele pergunta "você me ama? E ela responderia "eu amo o amor que você diz que sente por mim". E eu não estou falando de pessimismo, desencanto e nem tampouco de amargura. Falo exatamente do humano, daquele humano bipartido pela fome e pelo amor, daquele que acima de tudo foi concebido nesse mundo pelo abandono, pela dor da separação. Considerar as marcas indeléveis dessa separação é poder compreender que ela anunciou uma solidão e ainda assim, há uma insistência imperativa da necessidade do outro que sirva de suporte para negação dessa solidão. Partamos do pressuposto de que acompanhados estaremos melhor, portanto estar acompanhado abrandará essa sensação de solidão, mas por favor, sejamos maduros para fingir, sejamos maduros para conciliar, sejamos maduros para ceder, para abrir mão, para entender que o outro, ou seja, nosso objeto de amor é diferente de nós e que apesar de acharmos e querermos pensar que não sobreviveremos sem ele, poderemos sim viver na solidão. É necessária a compreensão da diferença e o silenciar na hora certa para persistirmos nesse encontro. E o ciúme, aquele que subjuga, por favor, joguemos no lixo. O ciúme chama a disputa, a luta pelo poder, ele faz preponderar a agressividade sobre o amor. A maturidade trás a compreensão do outro numa dimensão diferente, ela é necessária para adiarmos, renunciarmos o prazer imediato. A maturidade nos apresenta a paciência, ou seja, a possibilidade de nos frustrarmos em cotas pequenas que não nos colocarão na rua da amargura, muito pelo contrário, exercitarão nossa possibilidade de solidão.

O Ator e o Psicopata

É arrebatadora a interpretação da Adriana Esteves em Avenida Brasil. A arte de representar realmente surpreende principalmente quando nos deparamos com uma possibilidade distante daquela que vivemos. É provocante observar a expressão facial de quem interpreta e materializar mudanças concebidas em prol de um texto escrito por outra pessoa. Pode não haver coincidência nenhuma entre o que se passa na cabeça do autor inicialmente, ou seja a materialização de sua personagem,e o que o ator vai interpretar, no entanto, quando esse ator se apropria da personagem e se esse ator capta assustadoramente, como faz Adriana, as palavras do autor, ele trás pra si a alma da personagem. Talvez até o autor não tenha pensado em determinadas nuanças que o ator imprime no seu texto, contudo não há mais a possibilidade de dissociar um do outro. Ela conseguiu arrebatar a personagem para si, conseguiu demarcar expressões faciais que se manifestam sob a forma de tremores musculares faciais, risos com as mais diversas entonações, vozes horas graves e outras horas agudas, ares de esperteza e astucia. Isso tudo fez dela a proprietária incondicional da personagem. Agora como tomar para si alguém que se diferencia por meio de caráter duvidoso? Como emprestar emoções tão diversas para um outro que não se é? É aí que reside o talento, é dessa forma que a arte se constrói, a partir do ponto em que ela permite explorar terrenos que muitas vezes são áridos para quem executa. Escritores também criam personagens assassinos, psicopatas, cândidos ou ingênuos e nem porisso são dessa forma. O transito experimentado pelo humano de habitar outros território demonstram o quanto o exercício da fantasia possibilita uma descarga, trás para fora os mais recônditos sonhos que só se manifestarão através de uma expressão artística como a da Adriana Esteves que nessa novela consegue explorar e demonstrar através de sua interpretação que temos dentro de nós muitos outros desconhecidos, inexplorados que podem vir a tona sempre que chamamos. Dessa forma, o ator, o bom ator pode ser comparado ao psicopata a partir do momento em que representa um outro que lhe é estranho, um outro capaz de gestos, atitudes e comportamentos completamente diversos dos dele. E principalmente consegue convencer, consegue enganar o espectador. Consegue tanto isso que as vezes fica difícil dissociar a imagem emprestada a personagem pelo ator do próprio ator. O psicopata também engana, também é convincente e sedutor. Ele consegue arrebatar com suas representações na vida. Tanto consegue que muitos deles passam por nós sem nos darmos contas de sua psicopatia. Só quando a novela acaba é que eles se revelam, tanto o ator quanto o psicopata. Um representa em prol da arte o outro em prol de um um distúrbio psíquico que o aliena. No entanto, ambos representam!!!!! Lembra exatamente a música de Edu Lobo chamada a moça do sonho que expressa em seus versos uma contradição que inexplorada soa estranha. "Um lugar deve existir Uma espécie de bazar Onde os sonhos extraviados vão parar Entre escadas que fogem dos pés E relógios que rodam pra trás Se eu pudesse encontrar meu amor Não voltava jamais"

sábado, 17 de março de 2012

Justiceiro e Oprimidos

Os justiceiros estão por ai, sabem tudo, resolvem absolutamente tudo.
Eles tem sempre uma definição para qualquer acontecimento. Todos eles, de repente são políticos. Basta que observemos suas colocações para que possamos atingir a essência falsa e escusa de suas palavras.
Não, não mesmo!!! Eu não acredito em justiceiros, jamais acreditarei em atitudes nobres e descompromissadas!!! Elas não pertencem ao humano fluido e volátil de agora. Não acredito em altruísmo. Eu quero o bem dos meus filhos, dos meus amores e daqueles que me amam. O resto, sinceramente, pouco me importa. Digo isso porque não vivo por ai me preocupando com quem não conheço. Se sinto pena de alguém atribuo imediatamente ao meu "sentimento de culpa", que no mais intimo recanto invisível da minha consciência me acusa e diz: "que bom que não foi comigo e sim com ele".
Acredito definitivamente que o humano é um ser indecoroso e amoral. Nada, absolutamente nada, poderá passar para os outros sem que antes seja repassado no invisível da consciência. Eu não dou carona pra alguém que esteja se abrigando da chuva na rua, por mais que eu esteja sozinho no carro. Pra que vou fazer isso? A pessoa na chuva não me interessa, não a conheço. Ela não me deu amor!!!! Eu sou assim, talvez você no seu íntimo também seja, mas..... os justiceiros não são. Eles se expõem e defendem a todos. Eles defendem os pobres, os sofredores, os injustiçados, os oprimidos. A troco de que? Tem que haver uma recompensa para isso que com certeza não é amor incondicional pelos oprimidos. Será que eles estreitam os laços e choram junto com esses oprimidos? As vezes sim, e até encenam um quadro de emoção comovente. Mas eles sabem que os oprimidos adoram um palco onde possam despejar suas lamúrias. São os oprimidos que entregam, com toda pompa, o conteúdo do trabalho dos justiceiros, que agradecem em forma de defesa clamorosa e retumbante. Eles não vivem um sem outro, há uma relação simbiótica entre eles. Os oprimidos descarregam suas agruras sobre os justiceiros que por sua vez adquirem o que precisavam para fazer a pesudo justiça que divulgam e com isso ganham mais fama de grandes salvadores.
Eu ia começar esse texto falando sobre o pensar, sobre a possibilidade de dessecar a palavra dita, ela carrega sentidos escondidos, escusos, camuflados que enganam os ouvidos e produzem sentido de acordo com que se quer. É uma dobradinha perfeita: justiceiro e oprimido. Se completam, se nutrem e se alimentam um do outro, enquanto isso...a palavra é falada assintosamente desagregada, desconectada, adquirindo um som unívoco e não plural.