Quando comecei a ler achei aquilo estranho, mas enfim, cada um diz o que quer. O certo é que para ser bom, ter bons pensamentos, ter bons sentimentos, ou tudo aquilo que é pregado como nobre, como valoroso, como adequado, não deveria dispor de tanto esforço.
Pois bem, os religiosos lutam pela bondade, eles querem de qualquer modo se equiparar a perfeição. Não se permitem sentir raiva, ter pensamentos impuros,ou ainda,não se admitem como portadores desses sentimentos. Dessa forma, eles repudiam todo e qualquer resíduo daquilo que eles consideram amoral, inadequado ou fora das leis e normas que eles acreditam. Não gostaria de estar falando de classes, nem tampouco criticar crenças, religiões ou atitudes. O que me move a falar sobre isso nada mais é do que a possibilidade de encontrar com esses sentimentos, ditos "não bons" de forma menos reativa, ou seja, compreendê-los, aceitá-los, acolhê-los. Só assim, diante deles, "cara a cara", podemos de alguma forma encontrá-los para contorná-los. Ser bom é ser bom. E o "bom" é uma qualidade inventada, que só poderá ser introjetada quando experienciada, ou seja, não é porque dizem que é bom ser bom que vamos ser bons. Isso requer, obviamente, um caminhar, um caminhar de tropeços que possibilite o dizer não àquilo que não queremos. Essa autonomia, um pouco experimentada pelos maduros e tão esperada pelos que ainda estão em processo de amadurecimento, parece ser o motor que nos leva a bondade.O homem precisou caminhar da idade da pedra até os dias atuais. Lá, na idade da pedra, o homem primitivo matava, agia impulsivamente. Hoje, na era tecnologica o homem se comunica pela internet e como tal poderia também adiar o prazer, poderia experimentar a frustração como forma de renuncia ao prazer imediato, ai sim! O homem poderia ser bom, quando ele começar a se abandonar sem esforço. Se abandonar aqui, não é se desconectar de si, mas sim encontrar a possibilidade de colocar os ouvidos para escutar o outro sem interferência de si. Ser bom,ter bons pensamentos, portanto, não acontece porque queremos, acontece por uma capacidade de decisão que adquirimos com o tempo. Uma capacidade que se materializa pela vivência, pelo poder de decidir aquilo que queremos ou não.
Podemos pensar que é ilusório, mas é perfeitamente viável essa caminhada. Não adianta atribuir aos outros nossa desolação. Adianta sim, experimentarmos a desolação e entendermos que ela é necessária para nos sentirmos iluminados depois.
Podemos pensar que é ilusório, mas é perfeitamente viável essa caminhada. Não adianta atribuir aos outros nossa desolação. Adianta sim, experimentarmos a desolação e entendermos que ela é necessária para nos sentirmos iluminados depois.
Pode parecer para muitos difícil, mas podemos viver em harmonia com nós mesmos a principio e depois com os outros e com o mundo, basta que nos demos a chance de sofrer dignamente. Já disse uma vez, sabiamente, Carlos Drummond de Andrade "a dor é inevitável o sofrimento é opcional". Se deparar com a dor, no mundo em que vivemos, é inquestionável, porém, suportar a dor e lidar com ela de forma engrandecedor é para poucos e esses poucos não são aqueles que subiram um degrau no reinos dos céus e sim qualquer pessoa que saiba lidar consigo e experimente o auto afago.
E com isso quero deixar meu recado, um recado que não me parece fora de tempo, mas que poderá servir para uma outra forma de olhar o mundo. Uma forma que permita a contemplação da beleza acima de tudo, e a aquisição de olhar que antes se vasculhe por dentro para só depois se sobrepor pelo mundo.
Essa foto eu registrei na Pedra do Arpoador em Ipanema no Rio de Janeiro. O tempo estava frio e nublado, as gaivotas voavam sobre o mar e sobre as pedras e se concentravam ao redor dessa arvore sem folhas.