domingo, 24 de março de 2013

Perdão! mas pra que?

Suponhamos que todos pudessem perdoar. Todos a partir de agora esquecerão suas mágoas e desculparão aos que julgam responsáveis por seus sofrimentos. Como seria isso? O mundo ficaria melhor? Perdão é des-culpa, é retirar do outro a responsabilidade de um sofrimento, é libertar o outro dessa responsabilidade, é dar-lhe a carta de alforria psíquica eliminando a culpa que o outro carrega por ter cometido um ato que o abalou de forma a acarretar ressentimento. Sentir, sentir e sentir. Sentir várias e inúmeras vezes, assim vive aquele que foi magoado. Pensar, pensar e pensar, repetidas vezes sobre a causa do dissabor. Recordar, relembrar, reviver o que o outro lhe causou  de sofrimento, esse é o sentimento e o oficio do magoado.
É curioso poder pensar qual lugar a mágoa ocupa dentro de nós, em que parte ela se instala. Que espaço ela ocupa dentro do sofredor que faz com que ela floresça e se dissemine causando tanto transtorno? Ao mesmo tempo qual o tamanho do lugar que damos ao outro que autoriza que um ato seu nos cause tanta dor.
Nota-se logo que nesse par há uma relação de pertencimento. Há uma ligação importante que faz com que o seu ato, o seu comportamento tenha uma repercussão gigantesca e aniquiladora sobre o outro. Eles estão tão ligados que esse sentimento é capaz de atravessar dias, meses, anos ou décadas de infinita amargura e decepção.
Por outro lado aquele que causou a mágoa vive constantemente envolvido pela culpa, pelo remorso e muitas vezes, pelo arrependimento de ter cometido um ato que foi capaz de provocar tanta devastação. Os subprodutos com certeza virão: ódio, raiva, desprezo, desejo de vingança e por ai vai. Há de forma notória uma relação de poder entre esses dois. Obviamente o lugar que o que magoa ocupa dentro do magoado representa uma parte importante de seu eu. Ele retira do outro a capacidade da tranquilidade e inaugura o lugar da amargura. Por isso é uma relação de amor. É um casal que se engana, um filho que responde mal ou vai embora, um amigo que troca de amizade, um companheiro de trabalho que muda de emprego. Exemplos corriqueiros e banais, mas que encerram situações de troca, de mudança, de alteração. E o que fica? Esse se sentirá ofendido, traído, trocado, esquecido, abandonado, machucado.
É bonito e importante dizer tudo isso, faz pensar e é fundamental para o reconhecimento da dependência, da necessidade que temos de um outro por perto. É eficaz dizer tudo isso para identificarmos em nós esse vinculo, esse pertencimento, essa união indissolúvel que estabelecemos com qualquer outro que nos confirme.
Ao nos depararmos com essa falha, deixaremos muito provavelmente os escudos caírem, as defesas serem destruídas e partiremos para o perdão.
O perdão,a partir daqui, seria a via a ser seguida, seria o reconhecimento da falha, a identificação de que o  espaço esta vazio que antes era o outro ocupava esse espaço dentro de nós, e que agora a dor preenche acompanhada pelo ressentimento pelo des-amor. O perdão recolhe a dor e trás de volta o vínculo.
Optemos pelo perdão, pelo perdão em nosso favor, pelo perdão pela identificação da impotência que carregamos para sempre.
Perdoar pode não significar reconciliação mas com certeza significará libertação.

Dias de Gloria!

Pois bem! Se até aqui chegamos estamos satisfeitos...
Encontramos nessa jornada recompensas de uma vida bem vivida
De uma vida em que pudemos construir espaços sólidos...
Ultrapassamos os percalços
Superamos os dissabores
Corremos para encontrar a paz
E o que tiramos de tudo isso?
Que a jornada pode ser dura, mas quando pintadas com as cores da maturidade
Adquirem um tom equilibrado e levemente confortável
Descobrimos que viver, acima de tudo, é superar dia após dia
Os sentimentos truculentos
viver é procurar o conforto na suavidade e maciez
No entendimento e na compreensão do outro
Mas, fundamentalmente, na busca de si
Na busca daquilo que podemos encontrar de nós mesmos
No reconhecimento de si enquanto o principal agente de toda essa construção.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Bandeiras! Inúteis, eu acho....



o mundo diz vai
e eu não vou
pouco me interesso pela direção da enxurrada
resisto, me impeço
prefiro não fazer coro, opto pelo silêncio
a observação, o visual me atraem, me emocionam e arrebatam
decido sempre pelo pensamento, pelo passeio das ideias
visito cada uma delas, preciso revê-las e repensa-las 
as bandeiras, elas sim me amedrontam
sou convicto de que a via é do particular para o coletivo
entendi que sobre a enxurrada subjaz, disfarçadamente, o poder
compreendi, por isso, que o poder é o combustível da unanimidade
reconheci que a unanimidade privilegia, favorece
não os que levantam a bandeira
mas os que são o estímulo do levante
apenas eles, somente eles, se beneficiam
os fatos manifestam a realidade
o mundo se revela aos que querem enxergar
mas os olhos permanecem fechados, nublados e cegos
a clareza se dissipa, ela se dilui num mar de arrogância 
o desejo primitivo surge como ímpeto para a consagração
bajular é preciso
se manifestar enobrece, retira o ser do obscurantismo
marca a presença
pontua a existência
nomeia o anonimato
nesse tropeço, surge desde então, a arrebatadora força
a voracidade se materializa
como uma via disfarçada para o gozo
que perseguido, nos encontra com a morte
é o esperado fim, ele chegou
e, no entanto,é o inicio de um recomeço
eu clamo e proclamo...vamos derrubar as bandeiras
vamos derrubá-las solenemente com golpes de machado
na mais absoluta paz e tranquilidade
vamos destruí-las todas, elas são inúteis, desprezíveis 
completamente desnecessárias
elas são ineficientes
imprudentes
inconsequentes
infrutíferas
elas denunciam o mais primitivo dos sentimentos
aqueles tão rudimentares que incitam a destruição
optemos por nós mesmos
optemos pela ocupação do interior
vamos ocupar nosso interior
trazer pra dentro dele impressões do mundo 
impressões colhidas com olhares
eu, de minha parte, escolhi a beleza e a contemplação
a beleza que impregna o olhar
marcando e fundando um lugar eterno 
indestrutível
prefiro contemplar à discutir
prefiro também, observar a ter que relatar
contemplar e observar colocam o eterno em mim
arrumam o meu espaço interior
inauguram um território duradouro, sólido
e só meu 
que busco quando eu quero
lá, nesse território eu me encontro com a minha construção
com a minha produção...
lá, eu encontro, o que eu recolhi com os meus olhos
lá, eu encontro a beleza 
as memórias
as lembranças
as recordações
todas minhas, somente minhas
duradouramente minhas.