Escrever se torna um prazer sempre que posso me transportar, sempre que posso constatar que o que me move a expor pensamentos é a necessidade de dizer. E dizer aqui, é a arte de descortinar um turbilhão composto por misturas que revelam nuances diversas.
Digo isso por considerar que expressar pensamento, por meio da escrita ou expressar olhares, por meio da fotografia é o mesmo que montar um quebra cabeça, onde cada pedaço vem de um lugar, ou melhor, cada pedaço pertence a uma faceta escondida do pensamento. Essa mistura complexa não só se confunde com o todo, como quando reduzida revela influencias diversas, que nem nós como possuidores da possibilidade de dizer, reconheceremos como nossas.
Torna-se dessa maneira, um jogo de leva e trás que possivelmente não compreenderemos com facilidade, mas nem por isso esse conhecimento importará ou decidirá o curso dos acontecimentos. O ato de dizer carrega consigo uma inflexão contraditória que se manifestará enquanto falhas, ou seja, o discurso nunca e nem jamais conseguirá ser repleto do todo que queremos dizer, sendo portanto, dilacerado, fragmentado e cheio esquisitices e tropeços. Assim como o olhar revela uma imagem, o discurso produz um dito.
Dito e imagem, dessa forma, seriam desdobramentos de uma mesma matriz composta por fragmentos de vivências, que ainda por cima, podem ser desconhecidas de quem produz.
Para se ter a clareza do que me refiro pode-se pensar numa casa vazia em que você pretende mobiliar. Nessa casa provavelmente as cores da parede e a conformação dos moveis terão uma origem, que muitas vezes, podem estar influenciadas pelo que dita a moda, no entanto, algum detalhe poderá estar ligado a uma tendência individual, uma preferência ou um afeto. Dessa forma, provavelmente a casa mobiliada refletirá ou será influenciada por diversos fatores, decorrentes não só de mim como de inúmeros outros.
Escrever e fotografar talvez tenham essa mesma característica. Escrevo o que salta aos ouvidos pelo pensamento e crio as imagens fotográficas pelo que me salta aos olhos pelo pensamento também, embora ambas pertençam a mim, ambas também pertencem aos outros.Pode até parecer estranho que pertençam aos outros, mas como falei anteriormente essa mistura se constitui ao longo da experiência de vida.
A minha flor é colorida, ela foi fotografada a noite e com flash e ela tem sim o centro amarelo. Foi a minha forma de olhar para essa flor e captura-la da minha forma. Essa forma esta repleta de detalhes provenientes de fora de mim. Apesar dela ser minha.
Quero dizer com tudo isso que sou partidário das emoções e que elas, as emoções, podem até ser originadas de uma matriz biológica mas se constituem e se materializam através de uma sensibilidade conseguida com a vivência. E ai, a vivência importa não só a mim, mas a todos com quem me deparei no decorrer de minha existência.