domingo, 3 de junho de 2012
O Ator e o Psicopata
É arrebatadora a interpretação da Adriana Esteves em Avenida Brasil. A arte de representar realmente surpreende principalmente quando nos deparamos com uma possibilidade distante daquela que vivemos. É provocante observar a expressão facial de quem interpreta e materializar mudanças concebidas em prol de um texto escrito por outra pessoa. Pode não haver coincidência nenhuma entre o que se passa na cabeça do autor inicialmente, ou seja a materialização de sua personagem,e o que o ator vai interpretar, no entanto, quando esse ator se apropria da personagem e se esse ator capta assustadoramente, como faz Adriana, as palavras do autor, ele trás pra si a alma da personagem. Talvez até o autor não tenha pensado em determinadas nuanças que o ator imprime no seu texto, contudo não há mais a possibilidade de dissociar um do outro. Ela conseguiu arrebatar a personagem para si, conseguiu demarcar expressões faciais que se manifestam sob a forma de tremores musculares faciais, risos com as mais diversas entonações, vozes horas graves e outras horas agudas, ares de esperteza e astucia. Isso tudo fez dela a proprietária incondicional da personagem.
Agora como tomar para si alguém que se diferencia por meio de caráter duvidoso? Como emprestar emoções tão diversas para um outro que não se é? É aí que reside o talento, é dessa forma que a arte se constrói, a partir do ponto em que ela permite explorar terrenos que muitas vezes são áridos para quem executa. Escritores também criam personagens assassinos, psicopatas, cândidos ou ingênuos e nem porisso são dessa forma. O transito experimentado pelo humano de habitar outros território demonstram o quanto o exercício da fantasia possibilita uma descarga, trás para fora os mais recônditos sonhos que só se manifestarão através de uma expressão artística como a da Adriana Esteves que nessa novela consegue explorar e demonstrar através de sua interpretação que temos dentro de nós muitos outros desconhecidos, inexplorados que podem vir a tona sempre que chamamos. Dessa forma, o ator, o bom ator pode ser comparado ao psicopata a partir do momento em que representa um outro que lhe é estranho, um outro capaz de gestos, atitudes e comportamentos completamente diversos dos dele. E principalmente consegue convencer, consegue enganar o espectador. Consegue tanto isso que as vezes fica difícil dissociar a imagem emprestada a personagem pelo ator do próprio ator. O psicopata também engana, também é convincente e sedutor. Ele consegue arrebatar com suas representações na vida. Tanto consegue que muitos deles passam por nós sem nos darmos contas de sua psicopatia. Só quando a novela acaba é que eles se revelam, tanto o ator quanto o psicopata. Um representa em prol da arte o outro em prol de um um distúrbio psíquico que o aliena. No entanto, ambos representam!!!!!
Lembra exatamente a música de Edu Lobo chamada a moça do sonho que expressa em seus versos uma contradição que inexplorada soa estranha.
"Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava jamais"
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