Suponhamos que todos pudessem perdoar. Todos a partir de agora esquecerão suas mágoas e desculparão aos que julgam responsáveis por seus sofrimentos. Como seria isso? O mundo ficaria melhor? Perdão é des-culpa, é retirar do outro a responsabilidade de um sofrimento, é libertar o outro dessa responsabilidade, é dar-lhe a carta de alforria psíquica eliminando a culpa que o outro carrega por ter cometido um ato que o abalou de forma a acarretar ressentimento. Sentir, sentir e sentir. Sentir várias e inúmeras vezes, assim vive aquele que foi magoado. Pensar, pensar e pensar, repetidas vezes sobre a causa do dissabor. Recordar, relembrar, reviver o que o outro lhe causou de sofrimento, esse é o sentimento e o oficio do magoado.
É curioso poder pensar qual lugar a mágoa ocupa dentro de nós, em que parte ela se instala. Que espaço ela ocupa dentro do sofredor que faz com que ela floresça e se dissemine causando tanto transtorno? Ao mesmo tempo qual o tamanho do lugar que damos ao outro que autoriza que um ato seu nos cause tanta dor.
Nota-se logo que nesse par há uma relação de pertencimento. Há uma ligação importante que faz com que o seu ato, o seu comportamento tenha uma repercussão gigantesca e aniquiladora sobre o outro. Eles estão tão ligados que esse sentimento é capaz de atravessar dias, meses, anos ou décadas de infinita amargura e decepção.
Por outro lado aquele que causou a mágoa vive constantemente envolvido pela culpa, pelo remorso e muitas vezes, pelo arrependimento de ter cometido um ato que foi capaz de provocar tanta devastação. Os subprodutos com certeza virão: ódio, raiva, desprezo, desejo de vingança e por ai vai. Há de forma notória uma relação de poder entre esses dois. Obviamente o lugar que o que magoa ocupa dentro do magoado representa uma parte importante de seu eu. Ele retira do outro a capacidade da tranquilidade e inaugura o lugar da amargura. Por isso é uma relação de amor. É um casal que se engana, um filho que responde mal ou vai embora, um amigo que troca de amizade, um companheiro de trabalho que muda de emprego. Exemplos corriqueiros e banais, mas que encerram situações de troca, de mudança, de alteração. E o que fica? Esse se sentirá ofendido, traído, trocado, esquecido, abandonado, machucado.
É bonito e importante dizer tudo isso, faz pensar e é fundamental para o reconhecimento da dependência, da necessidade que temos de um outro por perto. É eficaz dizer tudo isso para identificarmos em nós esse vinculo, esse pertencimento, essa união indissolúvel que estabelecemos com qualquer outro que nos confirme.
Ao nos depararmos com essa falha, deixaremos muito provavelmente os escudos caírem, as defesas serem destruídas e partiremos para o perdão.
O perdão,a partir daqui, seria a via a ser seguida, seria o reconhecimento da falha, a identificação de que o espaço esta vazio que antes era o outro ocupava esse espaço dentro de nós, e que agora a dor preenche acompanhada pelo ressentimento pelo des-amor. O perdão recolhe a dor e trás de volta o vínculo.
Optemos pelo perdão, pelo perdão em nosso favor, pelo perdão pela identificação da impotência que carregamos para sempre.
Perdoar pode não significar reconciliação mas com certeza significará libertação.

