segunda-feira, 4 de junho de 2012

O Benéfico sofrimento

O que seria de nós sem o sofrimento e a dor, talvez vivêssemos eternamente em cima do pedestal, intocáveis e crentes que somos agraciados pelo tapete vermelho por onde passaremos e desfilaremos nossa gloria. É! O humano tem a ingênua  convicção de que tudo pode, enquanto nada perturba seu equilíbrio. Ele desfila sorrateiro desperdiçando sua avidez pelo sucesso consagrando seu controle e seu poder. Então, de repente, algo acontece que o tira da linha projetada do seu caminho, derrubando-o. 
     
     Nessa queda, disposta a por a prova sua onipotência podem ocorrer diversas gradações de sentimentos que vão desde a revolta até a conformação. Nesse meio tempo vários graus de estados de animo se depositam na alma, desde a  clara sensação de estar sendo injustiçado até o reconhecimento de sua impotência diante dos fatos ocorridos. 

      É duro para o humano saber-se sem rumo. É duro saber-se sem o domínio da condução de seu barco e ver que o caminho traçado pode dar em outro destino e não aquele que ele projetou. Só é nesse momento que nos damos conta do nosso desamparo frente aos acontecimentos. Seja uma doença, um amor que se acaba, um acidente, uma perda, qualquer fato que se relacione com a perda do controle põe o humano sob tensão. Tensão essa relacionada ao extermínio da capacidade de conduzir sua vida, não sabendo mais aonde ela vai dar.

     É quando entram o sofrimento e a dor, duas benções que se apresentam como forma de redenção. E só há esse caminho mesmo, o da redenção. O caminho do reconhecimento do fracasso e da impossibilidade do controle, a derrocada do poder. É a queda, é o desmoronamento de todas as mazelas fantasiadas ao longo da vida e o reconhecimento da falha e incompetência. Elas mudam a posição do trajeto, recolocando o homem no lugar da fragilidade, inaugurando sentimentos impróprios e incompatíveis com a onipotência humana. 
     Como lidar repentinamente com esses sentimento? Eles colocam um espelho onde são refletidos fracassos, sensação de esvaziamento, desprezo, impotência e amargura.

    Sofrimento e dor são freios que nos protegem da loucura. Loucura no sentido da preservação de pensamentos paradisíacos que o humano cultiva desde que nasce. A destruição desses sentimento promove amadurecimento, ensina sobre tolerância e paciência, renova os sentimentos e promove uma aproximação entre as pessoas.

     Descer do palco e passar de protagonista à platéia promove uma mistura, uma certa igualdade entre as pessoas, minimizando o desnível pavorosamente construído em torno da fantasia de onipotência, poder e superioridade. Reconhecer que o  sofrimento e a dor trazem provação e horror é estrear também uma nova forma de viver. Uma nova forma em que o humano poderá se reconhecer misturado, igual, participante e acima de tudo desesperançoso.

    Essa imagem foi registrada numa tarde ensolarada de agosto na Ilha de Mosqueiro em Belém - Pará.

domingo, 3 de junho de 2012

Mas pra que ciúme?

Alguém hoje me perguntou sobre o que eu achava do ciúme, respondi que o ciúme demonstra o quanto o humano é impossibilitado de ser só. O ciúme reflete exatamente um temor diante de uma ameaça. A ameaça da perda de amor para um outro, seja lá o que for esse outro, uma outra pessoa, um olhar desatento, uma novela de televisão e até um Ipad. Qualquer coisa que retire o objeto de amor do lugar imaginário se torna uma ameaça, desse modo o ciúme mostra que o humano não esta preparado para dividir, nem mesmo um pensamento, quanto mais um ato. Qualquer rumor de divisão pode levar a destruição da fantasia de completude. Ora, é cruel acharmos que o outro nos pertence incondicionalmente, como isso poderia ocorrer? Como poderíamos garantir a permanência constante, daquele que escolhemos como objeto, dentro de nossa fantasia? Como poderemos subjugar o outro com frases de efeito de caráter eminentemente moralista? O ciúme se pauta numa moral criada histórica e socialmente, ele existe para dar conta de uma moral concebida num contexto cultural, a tal instituição familiar que precisa ser preservada a qualquer custo. A meu ver qualquer ciúme é nocivo. Nocivo porque ele se assenta sob uma ameaça de perda. Diferencio completamente zelo, cuidado e atenção que dispensamos ao outro, de ciúme. Ciúme implica em posse, em pertencimento. Eu julgo que o outro "me enganou" porque ele me pertencia em atos e pensamentos. Só pertencemos a nós mesmos e a mais ninguém. Só podemos determinar as nossas atitudes e os nossos comportamentos. Quando muito o outro procura nos agradar, mas isso só enquanto estivermos a serviço da sua fantasia também. Deveríamos inverter a ordem do discurso dos amantes: ele pergunta "você me ama? E ela responderia "eu amo o amor que você diz que sente por mim". E eu não estou falando de pessimismo, desencanto e nem tampouco de amargura. Falo exatamente do humano, daquele humano bipartido pela fome e pelo amor, daquele que acima de tudo foi concebido nesse mundo pelo abandono, pela dor da separação. Considerar as marcas indeléveis dessa separação é poder compreender que ela anunciou uma solidão e ainda assim, há uma insistência imperativa da necessidade do outro que sirva de suporte para negação dessa solidão. Partamos do pressuposto de que acompanhados estaremos melhor, portanto estar acompanhado abrandará essa sensação de solidão, mas por favor, sejamos maduros para fingir, sejamos maduros para conciliar, sejamos maduros para ceder, para abrir mão, para entender que o outro, ou seja, nosso objeto de amor é diferente de nós e que apesar de acharmos e querermos pensar que não sobreviveremos sem ele, poderemos sim viver na solidão. É necessária a compreensão da diferença e o silenciar na hora certa para persistirmos nesse encontro. E o ciúme, aquele que subjuga, por favor, joguemos no lixo. O ciúme chama a disputa, a luta pelo poder, ele faz preponderar a agressividade sobre o amor. A maturidade trás a compreensão do outro numa dimensão diferente, ela é necessária para adiarmos, renunciarmos o prazer imediato. A maturidade nos apresenta a paciência, ou seja, a possibilidade de nos frustrarmos em cotas pequenas que não nos colocarão na rua da amargura, muito pelo contrário, exercitarão nossa possibilidade de solidão.

O Ator e o Psicopata

É arrebatadora a interpretação da Adriana Esteves em Avenida Brasil. A arte de representar realmente surpreende principalmente quando nos deparamos com uma possibilidade distante daquela que vivemos. É provocante observar a expressão facial de quem interpreta e materializar mudanças concebidas em prol de um texto escrito por outra pessoa. Pode não haver coincidência nenhuma entre o que se passa na cabeça do autor inicialmente, ou seja a materialização de sua personagem,e o que o ator vai interpretar, no entanto, quando esse ator se apropria da personagem e se esse ator capta assustadoramente, como faz Adriana, as palavras do autor, ele trás pra si a alma da personagem. Talvez até o autor não tenha pensado em determinadas nuanças que o ator imprime no seu texto, contudo não há mais a possibilidade de dissociar um do outro. Ela conseguiu arrebatar a personagem para si, conseguiu demarcar expressões faciais que se manifestam sob a forma de tremores musculares faciais, risos com as mais diversas entonações, vozes horas graves e outras horas agudas, ares de esperteza e astucia. Isso tudo fez dela a proprietária incondicional da personagem. Agora como tomar para si alguém que se diferencia por meio de caráter duvidoso? Como emprestar emoções tão diversas para um outro que não se é? É aí que reside o talento, é dessa forma que a arte se constrói, a partir do ponto em que ela permite explorar terrenos que muitas vezes são áridos para quem executa. Escritores também criam personagens assassinos, psicopatas, cândidos ou ingênuos e nem porisso são dessa forma. O transito experimentado pelo humano de habitar outros território demonstram o quanto o exercício da fantasia possibilita uma descarga, trás para fora os mais recônditos sonhos que só se manifestarão através de uma expressão artística como a da Adriana Esteves que nessa novela consegue explorar e demonstrar através de sua interpretação que temos dentro de nós muitos outros desconhecidos, inexplorados que podem vir a tona sempre que chamamos. Dessa forma, o ator, o bom ator pode ser comparado ao psicopata a partir do momento em que representa um outro que lhe é estranho, um outro capaz de gestos, atitudes e comportamentos completamente diversos dos dele. E principalmente consegue convencer, consegue enganar o espectador. Consegue tanto isso que as vezes fica difícil dissociar a imagem emprestada a personagem pelo ator do próprio ator. O psicopata também engana, também é convincente e sedutor. Ele consegue arrebatar com suas representações na vida. Tanto consegue que muitos deles passam por nós sem nos darmos contas de sua psicopatia. Só quando a novela acaba é que eles se revelam, tanto o ator quanto o psicopata. Um representa em prol da arte o outro em prol de um um distúrbio psíquico que o aliena. No entanto, ambos representam!!!!! Lembra exatamente a música de Edu Lobo chamada a moça do sonho que expressa em seus versos uma contradição que inexplorada soa estranha. "Um lugar deve existir Uma espécie de bazar Onde os sonhos extraviados vão parar Entre escadas que fogem dos pés E relógios que rodam pra trás Se eu pudesse encontrar meu amor Não voltava jamais"