É muito interessante perceber o sucesso do filme "Nosso Lar". Um filme, isso mesmo, apenas um filme que carrega consigo um sentido importante, o de apontar para a resolução do insolucionável mistério que é a morte.
Castigo aos culpados, salvação aos arrependidos. Uma combinação que se arrasta há séculos, no entanto agora, essa temática faz sucesso levando milhares de pessoas aos cinemas para que se confortem um pouco com alguma esperança de que o fim tenha continuação.
Não é de se estranhar esse fenomeno num mundo em que a ciência, a todo custo, tenta subjulgar a natureza impedindo o curso natural da vida. Criando e recriando experiências na tentativa de evitar a morte ela dissemina em eco a extensão e a perpetuação da vida.
Não é a toa que corpo, hoje, adquiriu o estatuto de cartão de visita. É por ele que se tem ou não valor e é por meio dele também que se é aceito e validado no mundo.
O reflexo de todo esse panorama se mostra na evitação do envelhecimento, na tentativa, muitas vezes artificial, de se manter jovem, bonito e saudável.
O corpo nessa perpectiva, tomou uma proporção absurdamente importante para manutenção do trânsito do indivíduo pelo mundo. Ele suplantou a mente e o psiquismo, na medida em que é supervalorizado e que chancela a aceitação do outro.
É pelo corpo que o indivíduo circula pelo social na atualidade, contúdo, o filme "Nosso lar" põe a imortalidade da alma no palco, não é mais o corpo e sim o espírito que sobrevive apesar de manter-se a imagem e semelhança do corpo.
De qualquer forma, o filme trás um consolo por levantar discussão sobre temas que parecem tão ultrapassados como a bondade, a caridade, e o reconhecimento do outro. Levando a uma constatação, a de que nem tudo sabemos e podemos e que, apesar da tentativa de subjulgação da natureza, a dúvida continuará a pairar sobre nossas mentes.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
AS MINHAS CONTAS QUERO ACERTAR COMIGO
Arvores com frutas.
Jardim florido.
Brisa, vento do rio entrando, se espalhando
Tudo poderia ser lindo como se apresenta
E é
Os meus olhos cegam, mas eles vêem
Ignoram
Desprezam
Mas eles, os meus olhos, existem.
Existem pra aquilo que quero ver.
Selecionam minha visão, me confundem.
Enxergam o escuro, o obscuro, a penumbra.
Mas meus olhos vêem
Meus olhos enxergam tudo
Eles querem ver aquilo que podem enxergar
Deixa eles vêem!
Deixa eles selecionarem a visão
As minhas contas quero acertar comigo
Com os meus olhos
Com minha capacidade de enxergar
Resolvi, quero ver tudo
Decidi, me determinei a enxergar o brilho
Vamos nos acertar: eu e meus olhos
Vamos conversar.
Vamos nos entender
Quero ver aquilo que quero
Conhecer os meus olhos
Quero claridade, iluminação, nitidez
Quero encontrar a cor das coisas
O sentido da existência através dos meus olhos
Os meus olhos podem se transformar naquilo que pretendo ser
Eles direcionarão minha existência
Quero claridade, infinitamente branco, nítido e definido
Vou treinar meus olhos para isso
Quero que eles me obedeçam e possam sair de mim naquilo que desejo
Colocando em mim, por eles, a luz
A luz que me revelará e me trará de volta
Assim, tendo meus olhos iluminados, me percebendo
Poderei ver através deles a mim mesmo.
domingo, 12 de setembro de 2010
hoje é domingo
Além de imposta, a propaganda eleitoral é um palco. Palco de artistas que encenam um ato de convencimento coletivo. Temos que nos deparar com frases aberrantes, colocações absurdas, planos mirabolantes e promessas estapafúrdias. A que se deve tudo isso? A que se devem as súplicas de "vote em mim"?
Serão eles todos altruístas? dedicados aos semelhantes?
Gostaria que todos se perguntassem, nesse momento, o que leva um indivíduo a se candidatar? Seria melhorar a vida da população ou a sua própria vida? Seria a porta para multiplicação de seus pães ou a multiplicação desses pães para dividir com os outros?
Acredito sinceramente que não possuimos nenhum candidato disposto a essa divisão, portanto, toda atenção é necessária nesse momento, afinal, vamos ficar sumetidos a vontade desses artistas por 4, 8 anos.
Um novo horizonte só será construído a partir da reflexão e do entendimento desse processo.
Serão eles todos altruístas? dedicados aos semelhantes?
Gostaria que todos se perguntassem, nesse momento, o que leva um indivíduo a se candidatar? Seria melhorar a vida da população ou a sua própria vida? Seria a porta para multiplicação de seus pães ou a multiplicação desses pães para dividir com os outros?
Acredito sinceramente que não possuimos nenhum candidato disposto a essa divisão, portanto, toda atenção é necessária nesse momento, afinal, vamos ficar sumetidos a vontade desses artistas por 4, 8 anos.
Um novo horizonte só será construído a partir da reflexão e do entendimento desse processo.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Ver que tudo pode retroceder, que aquele velho pode ser eu.......
A música "Vermelho" de Vanessa da Matta diz: “O velho gasta solidão, em meio aos pombos na Praça da Sé [...] Ver que tudo pode retroceder que aquele velho pode ser eu, no fundo da alma há solidão, e um frio que suplica um aconchego.”Acredito que os poetas e escritores carregam nas suas palavras aquilo que observam, sentem ou experimentam no mundo. Muito da identificação que sentimos ao ler ou escutar determinado trecho de um poema, de uma música, se encaixa naquele espaço que temos e que ainda precisa ser preenchido para que o novo possa se expressar.
Velho, retrocesso, solidão, fundo da alma são termos comuns na vida de qualquer pessoa. A Solidão é aquilo de que fugimos ao longo da vida, porém lá está ela sempre presente no fundo da alma suplicando realmente um aconchego. Chega uma hora em que há um retrocesso, um virar a cabeça para trás que quando já se é maduro, proporciona um olhar que percorre uma fila imensa de acontecimentos, uns muito bons, outros nem tanto, e outros ainda que pretenderíamos esquecer se pudéssemos.
Somos formados por um aglomerado de acontecimentos, fatos, momentos que vivemos. Transitamos pela vida buscando a “tal felicidade”, todos queremos ser felizes. Por ela, vivemos as mais estranhas experiências. Em nome dela, cometemos as mais bizarras atitudes, alguns grandes desatinos que nos acompanharão permanentemente durante a vida e darão o ar de sua graça sempre que houver oportunidade. Pensar sobre isso é poder realmente retroceder para encontrar parte por parte os momentos em que nos equivocamos. Equivoco sim, pois dependemos exclusivamente de nós mesmos, mas entendemos que para alcançar a felicidade precisamos do outro, que provavelmente é outro, ou melhor, que com certeza é diferente e carrega consigo sua história também.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
"Eros e Psique"
Nada melhor para começar um blog do que a poesia de Fernando Pessoa
"Eros e Psique"
(FERNANDO PESSOA)
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
"Eros e Psique"
(FERNANDO PESSOA)
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| Eros e Psique |
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
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